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A vida acontece no passo, não no pulo -embora, muitas vezes, tudo que a gente quer é poder pular algumas partes.

  • anaclaractpsi
  • 21 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

No decorrer deste ano uma das coisas que eu mais me via desejando era: mais tempo. Mais tempo para conseguir dar mais de mim a quem amo e mais tempo para conseguir me permitir viver mais presente. Quis também pular algumas partes, para não ter que haver com algumas situações.


Mas desejar mais tempo, paradoxalmente, muitas vezes nos leva a atropelá-lo. A querer compreender rápido demais, resolver, concluir. Como se acelerar fosse uma forma de ganhar tempo quando, na verdade, acaba-se por suprimir justamente o tempo necessário para aceitar, elaborar e sustentar o que precisava ser vivido.


Nem tudo se compreende no momento em que acontece. Muitas vezes, o entendimento é a posteriori, mesmo quando queremos saber tudo, controlar, prever. Nem tudo se entende no momento que acontece. Algumas coisas só fazem sentido depois, quando o agora encontra o que ficou para trás e o passado aceita ser tocado de novo.


Em psicanálise, entende-se que a experiência subjetiva se organiza em três tempos, que não seguem a lógica linear do relógio cronológico. Lacan nomeia estes tempos como: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir.


O instante de ver é quando algo irrompe na realidade: uma notícia, uma perda, um acontecimento. Algo se apresenta de forma súbita, quase traumática. Vê-se, mas ainda não se processa.


O tempo para compreender é um período que pode durar minutos, meses ou anos, em que se elabora, rumina, tenta dar sentido ao que aconteceu. É o tempo da dúvida, da análise, do “será que foi isso mesmo?”.


Já o momento de concluir é quando algo se organiza: um insight, uma decisão, uma certeza que emerge. Curiosamente, esse momento pode acontecer antes mesmo de o tempo para compreender “terminar”.


O interessante, e também complexo, é que estes tempos não formam uma sequência fixa. Pode-se estar no tempo para compreender e, de repente, viver um momento de concluir que nos lança novamente a um novo instante de ver, tal qual uma dança temporal.


O tempo pode ser um espaço para olhar para si, revisitar dores e dar novos sentidos ao que foi vivido, desde que haja, dentro dele, espaço para elaborar. O que transforma é o que fazemos com ele. Mesmo diante da exigência contemporânea de acelerar, concluir rápido, performar decisões, o psiquismo não obedece a esse ritmo.


Que possamos entender que a vida acontece no passo. E quanto mais tentamos atropelá-lo, o que ficou por elaborar no caminho, em algum momento, retorna. Aprender a sustentar esses passos talvez seja um dos trabalhos mais difíceis e mais necessários do nosso tempo.


Sustentar esses passos também diz de um trabalho psíquico.


 
 
 

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